Voltou a vestir a camisola coral. O tecido leve era ideal para o calor que se fazia sentir naquela tarde, a cheirar já a Verão, embora por pouco tempo.
O armário sempre cheio, a abarrotar de calças e blusinhas frescas, não a impediam de repetir as mesmas fardas, eleitas entre o caos abundante do roupeiro.
Aquela era uma tarde igual às outras, pensava, sem por isso se preocupar em alegrar o rosto com um lápis, um blush, ou qualquer outro artefacto que disfarçava o ar pesado de quem não anda a dormir bem.
Meteu distraidamente o envelope A4 na carteira de pele, ainda bem que só gostava delas grandes que assim cabia lá tudo, e a embalagem lá se arrumou direitinha entre o telemóvel e a barrinha de cereais, só um pouco incomodado pelo gordo porta-moedas que engrossava a cada dia de cartões e talões de desconto.
Depois de fazer ouvir os seus passos pela escada abaixo, com os saltos baixinhos a ecoar a sua presença quase ausência, bateu com a porta, e o silêncio instalou-se naquele fresco reduto de mármore que de nada mais servia do que de passagem.
Na rua o ar só não queimava porque um vento fresco teimava em insinuar-se com intensidade suficiente para fazer levantar o lixo do passeio, conduzindo-o até ao meio da estrada, a rodopiar.
Até lá chegar passou por miúdos e velhos, cada um despertando-lhe um sentimento tão diferente quanto intenso. Já não se podia dizer jovem e receava um dia ser velha, só porque ainda desconhecia que o seu corpo sempre disponível não lhe permitiria tal proeza.
Nos últimos dias ouvia-se sem se perceber e começava a questionar-se sobre os valores que até ali lhe nortearam a existência. Pouco dada a conversas de circunstância, evitava a todo o custo as pessoas que as cultivavam, ou pequenos convívios a falar sobre o tempo que faz.
Mas a sua profissão, apesar de felizmente a resguardar de um quotidiano a lidar com pessoas, tinha-a feito aprender a dizer coisas que nada mais valem tanto quanto nada, parecendo, no entanto, um discurso rico, interessante e até afável.
Fazia-o com ironia, como sempre, mas mais apurada agora, mais madura, com maior noção das doses certas de hipocrisia, para não se deixar desvendar.
Mas isso ainda era o que menos a preocupava por aqueles dias semi quentes em que se anuncia que um dia destes já dá para ir à praia, e que a seguir não conseguiremos sobreviver sem pelo menos uma ventoinha e muito gelo.
Pior mesmo era aquelas palavras azedas que lhe saiam da boca quando menos esperava, sem se anunciarem, saiam sem lhe pedir permissão e sem a deixar pensar, deixando-a só depois a pensar por longas horas sobre a sua desadequação, como se estivesse louca.
Estava longe de ser velha. Era mais nova do que velha, equilibrada na idade. Mas sentia-se a envelhecer pelas palavras, pelas ideias violeta que saiam de si sem pedir permissão. Tudo justificava um esgar de superioridade moralizante modesta que não podia suportar, muito menos quando defendia ela própria essa ideia sem querer.
Em todos os outros realçava o pior, o mais feio, o deslize, a palavra fora de tempo ou contexto, o mau carácter ou a falsa modéstia, a mão fechada, o mau gosto, o silêncio ou o alto volume das expressões.
Quem sabe o conteúdo do envelope não poderia ajudar a perceber se o que calculava era essa razão de ser sublime, ou se bastavam alguns anos e rugas de desprazer para fazer dela alguém que se interessa pelo mais feio que o outro mostra, sem tentar ir mais longe procurando o belo.
Com o cabelo meio envolto pela brisa forte já de fim de tarde, a respirar mais forte por causa da pequena inclinação da rua que tinha um jardim onde quatro senhores de boina e calças vincadas de fazenda jogavam às cartas à sombra e outros três assistiam, e onde do outro lado havia uma mãe recente que insistia proteger a cada minuto o seu bebé do vento com o toldo do carrinho de passeio, sem deixar de o abanar para a frente e para trás, empurrou a porta transparente e entrou de cabeça erguida.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário