A minha irmã tinha um amigo, o Luís, que nasceu a 29 de Fevereiro. Esse dia só existe de quatro em quatro anos, o que lhe servia para dizer que era muito mais novo sem mentir. Na altura não fazia muita falta a desculpa, porque ficava com a idade de uma criança de colo, mas agora talvez faça mais jeito.
Não sei dele porque há anos perderam o contacto, mas gostava de lhe dar os parabéns, só amanhã, porque depois só em 2012 será possível voltar a fazê-lo.
Naquela altura achava isso estranhíssimo, mas claro que para ele era a coisa mais natural do mundo.
Nesse como noutros aspectos mais graves e sérios, são os olhos dos outros que tantas vezes nos mostram que temos uma diferença. Que a nossa situação não é 'normal'.
No filme 'Twin Falls Idaho' - não me lembro da tradução - por exemplo, é evidente como a diferença se espelha e incomoda muito mais os outros do que os próprios.
A história dos dois irmão siameses, ligados pela cabeça, mostra uma vida cheia de emoções e sentimentos, um amor profundo entre os dois, uma magia que só se desfaz quando entra em cena um terceiro elemento, e depois mais, que tudo vão desconstruindo.
Nenhum de nós é normal, porque não existem duas pessoas iguais, logo, não pode haver um parâmetro.
Mas há quem sectorize as pessoas pelo que elas parecem, desumanize quem não tem 'tudo no sítio', como se o humano fosse apenas ou principalmente corpo e nem tanto alma, emoção e razão.
Mais felizes serão aqueles que conseguem viver com aquilo que têm, mas, principalmente, os que conseguem olhar para si muito para além da 'diferença' que os outros encontram.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Ode ao sofá
Há-os de todas as cores e feitios. Usa-se na sala, mas também no quarto à entrada e até na casa de banho. Mais recentemente no closet.
Há-os rijos e desconfortáveis, há-os moles onde caímos sem rede e de onde custa sair. Há-os tão rígidos, de estilo imperial que pouco mais servem do que para enfeitar.
Pode ser de pele escorregadia ou de tecido firme, reclinável ou estanque, preto e branco, roxo, amarelo, vermelho. Pode ser liso e discreto, dos que passam desapercebidos ou colorido, às flores, dos que dominam o espaço todo.
Há-os novos a estrear, ainda a requerer adaptação. Há-os velhinhos e desconjunturados, bamboleantes, que chiam.
É o centro da casa, um refúgio, pela sua polivalência sem limites.
Lá nos sentamos a ver televisão, a comer, a conversar. Gostamos dele quando estamos sozinhos ou acompanhados. Lá nos deitamos com cansaço, adormecemos antes da cama, lemos o jornal, um bom livro ou fazemos amor.
Serve para sentar os convivas quando contamos com eles ou quando aparecem de surpresa. Gostamos de lá ter os íntimos, e queriamo-lo menos confortável para os indesejáveis.
Nele se sentam os amigos, nele se abre uma cama quando nos pedem abrigo.
Aqui sento-me e penso, aqui deito-me sem pensar, aqui escrevo, com o corpo moldado à tua pele castanha.
Há-os rijos e desconfortáveis, há-os moles onde caímos sem rede e de onde custa sair. Há-os tão rígidos, de estilo imperial que pouco mais servem do que para enfeitar.
Pode ser de pele escorregadia ou de tecido firme, reclinável ou estanque, preto e branco, roxo, amarelo, vermelho. Pode ser liso e discreto, dos que passam desapercebidos ou colorido, às flores, dos que dominam o espaço todo.
Há-os novos a estrear, ainda a requerer adaptação. Há-os velhinhos e desconjunturados, bamboleantes, que chiam.
É o centro da casa, um refúgio, pela sua polivalência sem limites.
Lá nos sentamos a ver televisão, a comer, a conversar. Gostamos dele quando estamos sozinhos ou acompanhados. Lá nos deitamos com cansaço, adormecemos antes da cama, lemos o jornal, um bom livro ou fazemos amor.
Serve para sentar os convivas quando contamos com eles ou quando aparecem de surpresa. Gostamos de lá ter os íntimos, e queriamo-lo menos confortável para os indesejáveis.
Nele se sentam os amigos, nele se abre uma cama quando nos pedem abrigo.
Aqui sento-me e penso, aqui deito-me sem pensar, aqui escrevo, com o corpo moldado à tua pele castanha.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Ter poder
"Não há relações sociais sem jogos de poder", dizia uma psiquitra sobre as relações de amizades que as crianças desenvolvem.
É sempre um laço de poder, de facto, desde a primária, que se perpetua pela idade adulta. Quem tem poder é sempre o mais forte, o mais bonito, o mais bem vestido, o mais rico, o mais inteligente. Se naquela altura esses estatutos dependem muito mais dos nossos pais do que de nós mesmos, à medida que o tempo passa cabe-nos ser responsáveis pelo nosso próprio sucesso, e consequentes jogos de poder que lhes estão associados.
Aí, é a nossa natureza que vem ao de cima. Podemos ser do tipo simpático, do tipo popular, do tipo manipulador, do tipo eu-sei-lidar-com-toda-a-gente ou mais do género bicho do mato. Entre estas possibilidades há variações, e tudo passa a depender do lugar que ocupamos na relação com o outro. Se o olhamos de cima, de baixo ou de frente, basicamente. Ou pior, se nem sequer o olhamos ou somos olhados.
Depois há outras medições de forças muito mais subtis e sensíveis, cuja corda está sempre bamba. As relações de amor e de amizade exigem sempre um equilíbrio e é nele que reside a capacidade de acreditarmos que podemos ser mais. Há, ainda, as outras relações mais desiquilibradas: as que temos com os nossos pais, que nos poõem nos píncaros, com aquele admirador que nunca deixou de nos desejar ou, por outro lado, com o nosso chefe, para quem nunca fazemos o suficiente e bem que chegue.
Entretanto há as outras, tantas outras que a indiferença lhes toca se parecerem irrelevantes para o topo que subimos a custo e que queremos a qualquer custo atingir, Aquelas que servem para calcarmos e olhar mais de cima. Ou o contrário.
Equilíbrio precisa-se, porque as cadeiras de poder são escassas e nem todos os rabos lá cabem.
É sempre um laço de poder, de facto, desde a primária, que se perpetua pela idade adulta. Quem tem poder é sempre o mais forte, o mais bonito, o mais bem vestido, o mais rico, o mais inteligente. Se naquela altura esses estatutos dependem muito mais dos nossos pais do que de nós mesmos, à medida que o tempo passa cabe-nos ser responsáveis pelo nosso próprio sucesso, e consequentes jogos de poder que lhes estão associados.
Aí, é a nossa natureza que vem ao de cima. Podemos ser do tipo simpático, do tipo popular, do tipo manipulador, do tipo eu-sei-lidar-com-toda-a-gente ou mais do género bicho do mato. Entre estas possibilidades há variações, e tudo passa a depender do lugar que ocupamos na relação com o outro. Se o olhamos de cima, de baixo ou de frente, basicamente. Ou pior, se nem sequer o olhamos ou somos olhados.
Depois há outras medições de forças muito mais subtis e sensíveis, cuja corda está sempre bamba. As relações de amor e de amizade exigem sempre um equilíbrio e é nele que reside a capacidade de acreditarmos que podemos ser mais. Há, ainda, as outras relações mais desiquilibradas: as que temos com os nossos pais, que nos poõem nos píncaros, com aquele admirador que nunca deixou de nos desejar ou, por outro lado, com o nosso chefe, para quem nunca fazemos o suficiente e bem que chegue.
Entretanto há as outras, tantas outras que a indiferença lhes toca se parecerem irrelevantes para o topo que subimos a custo e que queremos a qualquer custo atingir, Aquelas que servem para calcarmos e olhar mais de cima. Ou o contrário.
Equilíbrio precisa-se, porque as cadeiras de poder são escassas e nem todos os rabos lá cabem.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Olhos do Mundo
Já foram divulgados os vencedores deste ano do World Press Photo.
Aqui fica a galeria das imagens nunca indiferentes que nos são trazidas por fotógrafos que correm o mundo a captar os outros.
WPP 2008
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Camisa de dormir e outros carnavais
Gostavas tanto do Carnaval que todos os anos o preparavas em cima da hora. Eram múltiplas as ideias para criar, dos farropeiros que herdaste, que se turvava a decisão final.
Uma vez desencantaste a coroa de casamento da tua mãe, ainda na primária, na idade em que todas as meninas sonham ser noivas. O resto, uma camisa de dormir semi transparente, e um cortinado translúcido na cabeça, fez as delícias das roupagens inteiras, compradas de propósito para o evento. Essas não te agradavam, tiravam a graça à essência da fantasia, da inovação. Por isso não fez esmorecer a tua vontade de criar, que continuou sempre a subir até ao dia em que te mascaraste de fogo, e ninguém percebeu. Ainda antes, um ano foste rainha da sucata.
Depois começaste a adoptar roupagens mais comuns. Apenas reflexo da normalidade instalada na tua vida, da pouca propensão para fantasiar mais longe. As banais hippie, japonesa e islâmica passaram por ti. Agora resta apenas uma peruca azul e uma máscara. E muitos carnavais seguidos sem outra personalidade que não tu, a ignorar a transmissão ao fim da noite da folia brasileira e a olhar de soslaio os sambas que alastram pelo país.
Mas a vontade de ser outro permanece e outros carnavais se seguirão.
Uma vez desencantaste a coroa de casamento da tua mãe, ainda na primária, na idade em que todas as meninas sonham ser noivas. O resto, uma camisa de dormir semi transparente, e um cortinado translúcido na cabeça, fez as delícias das roupagens inteiras, compradas de propósito para o evento. Essas não te agradavam, tiravam a graça à essência da fantasia, da inovação. Por isso não fez esmorecer a tua vontade de criar, que continuou sempre a subir até ao dia em que te mascaraste de fogo, e ninguém percebeu. Ainda antes, um ano foste rainha da sucata.
Depois começaste a adoptar roupagens mais comuns. Apenas reflexo da normalidade instalada na tua vida, da pouca propensão para fantasiar mais longe. As banais hippie, japonesa e islâmica passaram por ti. Agora resta apenas uma peruca azul e uma máscara. E muitos carnavais seguidos sem outra personalidade que não tu, a ignorar a transmissão ao fim da noite da folia brasileira e a olhar de soslaio os sambas que alastram pelo país.
Mas a vontade de ser outro permanece e outros carnavais se seguirão.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Escárnio e maldizer
Há episódios que acontecem no nosso país perante os quais as únicas reacções possíveis são rir a bandeiras despregadas ou chorar baba e ranho.
Às vezes são precisos acontecimentos destes para de repente darmos conta que não acabámos de aterrar num local onde proliferam atrasados mentais mascarados de funcionários públicos ou de coadjuvantes - ou mesmo de mandatários - com o sistema quarto mundista que nos governa. Habitamos o mesmo planeta afinal. Eles andam aí.
Calculo que em condições normais, um episódio destes faria cair o Governo. Mas não. Pacificamente substitui-se o ministro e siga pra bingo. Sem consequências, sem mácula. Já se tornou hábito. Quem faz um (ou muitos) disparate(s) demite-se e depois vem outro, para apanhar os cacos e negar responsabilidades. O povo é que tem as costas largas.
E agora parece que tem também o raciocínio turvo pela crise, imagino essa a razão. Tiram-lhe tudo, e nem um ai. Não vá ficar este planeta ainda mais atrasado, elementar, povoado de seres incompreensíveis que nos comandam e decidem por nós piores do que os que já ocupam o poleiro. Temos medo. Assim alastra a epidemia de atraso mental agudo que prolifera um pouco por todo o lado. Sem heróis nem exemplos, senão os piores.
Felizmente é Carnaval e em breve tudo será esquecido. Felizmente não era eu nem nenhum dos meus quem estava à espera do INEM. Felizmente o humor tem poder. Pelo menos o de trazer à lembrança, o de mostrar outra perspectiva. O poder de ninguém levar a mal. Para os Gato Fedorento é sempre Carnaval e escárnio e maldizer, e ainda bem. Felizmente fazem-nos rir de um episódio que tem tanto de insólito como de inaceitável.
Às vezes são precisos acontecimentos destes para de repente darmos conta que não acabámos de aterrar num local onde proliferam atrasados mentais mascarados de funcionários públicos ou de coadjuvantes - ou mesmo de mandatários - com o sistema quarto mundista que nos governa. Habitamos o mesmo planeta afinal. Eles andam aí.
Calculo que em condições normais, um episódio destes faria cair o Governo. Mas não. Pacificamente substitui-se o ministro e siga pra bingo. Sem consequências, sem mácula. Já se tornou hábito. Quem faz um (ou muitos) disparate(s) demite-se e depois vem outro, para apanhar os cacos e negar responsabilidades. O povo é que tem as costas largas.
E agora parece que tem também o raciocínio turvo pela crise, imagino essa a razão. Tiram-lhe tudo, e nem um ai. Não vá ficar este planeta ainda mais atrasado, elementar, povoado de seres incompreensíveis que nos comandam e decidem por nós piores do que os que já ocupam o poleiro. Temos medo. Assim alastra a epidemia de atraso mental agudo que prolifera um pouco por todo o lado. Sem heróis nem exemplos, senão os piores.
Felizmente é Carnaval e em breve tudo será esquecido. Felizmente não era eu nem nenhum dos meus quem estava à espera do INEM. Felizmente o humor tem poder. Pelo menos o de trazer à lembrança, o de mostrar outra perspectiva. O poder de ninguém levar a mal. Para os Gato Fedorento é sempre Carnaval e escárnio e maldizer, e ainda bem. Felizmente fazem-nos rir de um episódio que tem tanto de insólito como de inaceitável.
Ano Lunar
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