e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A via sinuosa

Primeiro senta-se com um suspiro grave de cansaço e só depois pega no manípulo de luzes que a liga ao mundo tuga mesmo ali ao lado.

Enquanto degusta o iogurte de marca branca com sabor a frutos silvestres, que os tempos não estão para adágio, clica insistentemente até perfazer as quatro imagens passíveis de colorir o seu ecrã plano.

Detém-se ao ver uma mulher plástica, que ri nas suas bochechas imóveis sem expressão e ocupa o espaço todo com os seus lábios carnudos e hipnotizantes. Num primeiro momento, com o horror da decadência, pensa que não vale a pena olhar de mais, que um dia pode também ficar de tal forma plástica e idiotizada pelo correr do tempo. Depois conclui que não.

A mulher que parece ainda mais de plasticina do que de plástico - embora sem a maleabilidade da primeira - continua a rir-se das notícias que apresenta, e a comentar cada uma com dicas à taxista. Breves trechos incendiários, que dão a ideia de deixar qualquer coisa no ar, mas na verdade dizem tudo o que nos ocorre num primeiro momento de sangue quente, sem análise posterior ou aprofundada.

Ao seu lado, um homem que parece ter acabado de injectar uma dose de cavalo, literalmente para ambas as acepções, ainda ajuda a comentar os temas da semana, com dizeres arrastados de que nem o âmago se consegue bem antever, de tão superficiais.

É certo que parece um intelectual, daqueles que pensam tanto que acabam por se esquecer como o verbalizar. Mas isso era só se o ecrã plano estivesse sem som - impossível exercendo a sua versão de companhia - mas ao ouvi-lo não há-que enganar. Ele não cheirou, só pode mesmo ter injectado uma bela dose de castanhinha antes de se ter arrastado até ao estúdio - que fora de moda. Se fosse gulosa disfarçaria muito melhor. Tudo o que diz a seguir comprova a teoria que vai cruamente elaborando enquanto tenta tirar uma semente de amora - ou framboesa, não sabe precisar - daquela falha que até agora nenhum dentista conseguiu corrigir.

Quer mudar de antena, mas não consegue. O grotesco da cena - que provavelmente se repete semanalmente com aquela parelha, e que a partir de agora não vai mais perder - prende-lhe o olhar ao mesmo tempo que lhe tolhe o entendimento. Mais um pouco e estaria já a gritar da varanda que sim, a culpa é do Governo, e este País não é para velhos, nem novos, nem pobres e muito menos multi-milionários.

Passado pouco, sem intervalo, enquanto ainda está smi estupidificada a olhar, surge no ecrã o sorteio do euro milhões. Que divertido seria ganhar, pensa, ainda embrenhada no espírito esperançado e ambicioso do povo que hoje em dia pouco tem de incendiário, por mais que tentem aí levá-lo.

Que divertido seria, de facto, como um permanente sorriso. Mas não, nem sequer jogou. E ainda que jogasse, tem demasiado enraizado o fado da sorte que nunca há-de chegar. Além disso, auto-motivados, à sua frente estarão todos os milhares que já leram o 'segredo', mentalizando-se para chegar mais longe. E também os que cravejados de dívidas não pensam com tanta força noutra solução milagrosa que não esta.

Ainda assim, insiste, seria divertido. Pensa no que faria com bolsos sem fim e sorri, nessa esperança feliz de quem há-de sempre acreditar no milagre que vem aí, salvar-nos da banalidade cruel.

E é então que, decidida a deambular por outros universos fantasiosos encara o aviso de novo email. Trabalho, a chamar à terra, ao chão sujo dos que têm ainda a labuta para se dignificarem. Sem milagres ou plásticas com martini, ainda podemos apreciar o milagre da percepção, do entendimento e da concretização.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os moralistas

Voltou a vestir a camisola coral. O tecido leve era ideal para o calor que se fazia sentir naquela tarde, a cheirar já a Verão, embora por pouco tempo.

O armário sempre cheio, a abarrotar de calças e blusinhas frescas, não a impediam de repetir as mesmas fardas, eleitas entre o caos abundante do roupeiro.

Aquela era uma tarde igual às outras, pensava, sem por isso se preocupar em alegrar o rosto com um lápis, um blush, ou qualquer outro artefacto que disfarçava o ar pesado de quem não anda a dormir bem.

Meteu distraidamente o envelope A4 na carteira de pele, ainda bem que só gostava delas grandes que assim cabia lá tudo, e a embalagem lá se arrumou direitinha entre o telemóvel e a barrinha de cereais, só um pouco incomodado pelo gordo porta-moedas que engrossava a cada dia de cartões e talões de desconto.

Depois de fazer ouvir os seus passos pela escada abaixo, com os saltos baixinhos a ecoar a sua presença quase ausência, bateu com a porta, e o silêncio instalou-se naquele fresco reduto de mármore que de nada mais servia do que de passagem.

Na rua o ar só não queimava porque um vento fresco teimava em insinuar-se com intensidade suficiente para fazer levantar o lixo do passeio, conduzindo-o até ao meio da estrada, a rodopiar.

Até lá chegar passou por miúdos e velhos, cada um despertando-lhe um sentimento tão diferente quanto intenso. Já não se podia dizer jovem e receava um dia ser velha, só porque ainda desconhecia que o seu corpo sempre disponível não lhe permitiria tal proeza.

Nos últimos dias ouvia-se sem se perceber e começava a questionar-se sobre os valores que até ali lhe nortearam a existência. Pouco dada a conversas de circunstância, evitava a todo o custo as pessoas que as cultivavam, ou pequenos convívios a falar sobre o tempo que faz.

Mas a sua profissão, apesar de felizmente a resguardar de um quotidiano a lidar com pessoas, tinha-a feito aprender a dizer coisas que nada mais valem tanto quanto nada, parecendo, no entanto, um discurso rico, interessante e até afável.

Fazia-o com ironia, como sempre, mas mais apurada agora, mais madura, com maior noção das doses certas de hipocrisia, para não se deixar desvendar.

Mas isso ainda era o que menos a preocupava por aqueles dias semi quentes em que se anuncia que um dia destes já dá para ir à praia, e que a seguir não conseguiremos sobreviver sem pelo menos uma ventoinha e muito gelo.

Pior mesmo era aquelas palavras azedas que lhe saiam da boca quando menos esperava, sem se anunciarem, saiam sem lhe pedir permissão e sem a deixar pensar, deixando-a só depois a pensar por longas horas sobre a sua desadequação, como se estivesse louca.

Estava longe de ser velha. Era mais nova do que velha, equilibrada na idade. Mas sentia-se a envelhecer pelas palavras, pelas ideias violeta que saiam de si sem pedir permissão. Tudo justificava um esgar de superioridade moralizante modesta que não podia suportar, muito menos quando defendia ela própria essa ideia sem querer.

Em todos os outros realçava o pior, o mais feio, o deslize, a palavra fora de tempo ou contexto, o mau carácter ou a falsa modéstia, a mão fechada, o mau gosto, o silêncio ou o alto volume das expressões.

Quem sabe o conteúdo do envelope não poderia ajudar a perceber se o que calculava era essa razão de ser sublime, ou se bastavam alguns anos e rugas de desprazer para fazer dela alguém que se interessa pelo mais feio que o outro mostra, sem tentar ir mais longe procurando o belo.

Com o cabelo meio envolto pela brisa forte já de fim de tarde, a respirar mais forte por causa da pequena inclinação da rua que tinha um jardim onde quatro senhores de boina e calças vincadas de fazenda jogavam às cartas à sombra e outros três assistiam, e onde do outro lado havia uma mãe recente que insistia proteger a cada minuto o seu bebé do vento com o toldo do carrinho de passeio, sem deixar de o abanar para a frente e para trás, empurrou a porta transparente e entrou de cabeça erguida.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O tempo que o tempo tem

O olhar vermelho e baço pouco mostrava do passado trocista.

Agora, todo o seu universo não passava de uma neblina sobre um cubo, cujas únicas variações se faziam no que estava retido na memória, e onde raramente entrava um raio de luz feliz.

Na verdade, apesar de outros tempos mais gloriosos no passado, a vida seguira o seu curso, e a mudança não era tão grande quanto se poderia prever, tendo estado presente em ambos os momentos.

Sempre havia uma limitação natural a tudo o que não lhe dissesse directamente respeito. Ou atrapalhasse. É isso que espelham os olhares, mesmo os mais antigos. Há coisas que não mudam nunca, e muito menos pessoas.

O tempo não muda, realça, vinca. Se acaba por mostrar antes isto do que aquilo, essa é a diferença que faz.

Bem se via ali a sua revolta, a revolta vã de se achar demasiado interessante para aquele cenário. Mal pôde, mal a oportunidade surgiu, e quando já não havia porque se conter- pensou - vomitou o seu veneno acumulado durante anos contra tudo aquilo, mas em doses pequenas, para o prolongar no tempo e no efeito.

Tocou os que desprezava da pior forma, e quanto mais vomitava, mas o líquido amargo se voltava contra si.

Nunca chegou a perceber que quanto mais se queria afastar daquela imagem feia e desadequada, como uma parede com tinta branca a estalar, que por baixo deixa antever o cimento cinzento escuro, mais essa imagem se aproximava, e não havia nem há ainda lima que possa salvar. Simplesmente porque nunca foi o que imaginou ser. Embora continue a crer que sim.

Nunca conseguiu fugir, apenas distanciar-se. Desde sempre, nos momentos em que a mente, e por vezes o corpo, pareciam mostrar-lhe que já estava mais longe, sorria. Mas como se tratava apenas de uma fina e frágil, só aparente camada, foi por pouco.

A tentar fugir, tornou-se pior. Espelhou nos outros a pior imagem que formou da própria mente turva. Ficou só, engasgou-se no seu próprio vómito mas continuou a lançar dor e nada e a seguir mágoa e depois desprezo, como se nada mais existisse.

Ainda assim, as espessas barreiras daquele cubo nada deixavam ver para além de si.

O tempo passa e a trama continua a adensar-se. É já tão espessa que não há como arrancar aquele tumor enraizado, não há como tocar aquele peito frio de gelo. Que fazer?





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A luz acendeu-se na sua mente naquele momento. Não havia palavra, apenas intuição, e via agora - mas sempre chega a hora de juntar as peças do puzzle. Queria gritar - agora sim! faz sentido! Como lhe acontecera outrora, para o pior. Sabia que não o poderia fazer - gritá-lo bem alto, não havia qualquer erro de avaliação, o que piorava tudo ainda mais se possível - e que o risco era demasiado alto, traçado direito mas percebido em ziguezague. Deixa-se ficar na serenidade de que o seu coração afinal não é injusto e azedo, e que há momentos, tantos, simplesmente impossíveis de esquecer ou perdoar. E, mais ainda, que não se podem mudar.