e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O tempo que nos limita

Tantas vezes manda em nós o tempo, mais do que as que mandamos nós nele. Essa cadência que nos limita e nos faz cair numa malfadada espera, nessa sequência de momentos repartidos que temos de trespassar, e que outras vezes preferiríamos ignorar de todo. Como um buraco negro do universo, daqueles que nem sabemos bem o que são, a não ser que fazem desaparecer tempos e momentos e formas que aqui aceitamos como as únicas reais, uma barreira marcada no espaço por onde terei de passar, assomasse à minha frente e me obrigasse a pensar. O que é isto que se me depara? É um tempo, é só um momento, uma passagem, será uma condição? Será bom, será mau, será viável? Dar-me-ei conta de que acontece de facto, ou só agora, ao chegar, que já lá estou? Falta pouco e apercebo-me desta viragem (ou viagem) de forma mais consciente do que gostaria. Não sei como será a chegada, mas gostava de deixar este registo da partida, que de alguma forma me atormenta. Não imagino o que está do lado de lá. É só uma medição humana, bem sei. Mas há qualquer coisa de inquietante no seu legado. Exige uma postura, calculo, que não me apetece compôr, não para já, como a tantos outros como eu. Há uma resolução imanente que deveria definir-me, mas creio que ainda estou demasiado do lado de cá. Se tivesse mais vidas poderia escolher um caminho para cada uma delas, e depois indicar o mais feliz. Assim resta-me deixar-me ir, ao correr do tempo ventoso que me empurra, ainda assim caridoso, em suaves rajadas. Socorro-me dos 'novos 20', mas não me parece suficiente. Dizem-me que sim, em acenos de cabeça de quem já há muito está do outro lado. Resistirei ao tempo que me aguarda ali, depois do abismo do melhor que já passou? Vou acordar daqui a dias e saber que já nada há a fazer, olhar para trás e sorrir, apenas. Não vale a pena lutar contra o tempo, porque ele ganha sempre. Mais vale deixar-me levar pela sua brisa até aqui suave e esperar que se aproveite de mim tanto quanto eu me quero aproveitar dele, até à próxima década.